top of page
Buscar

As águas de Catarina

  • sheylacdiniz
  • 17 de ago. de 2022
  • 2 min de leitura


Mergulho


Catarina está com ares modernos. Dissipou-se. “Le transitoire, le contingent, la moitié de l’art”. Desde então se arruma e sai para nadar quase todas as manhãs. Equilíbrio dos chacras. Água, porém, nem sempre toma a forma que a gente quer. Foi nessa época que encontrou Felipe pela primeira vez. Num restaurante. Sentiu que havia algo de poder naquela postura. Naquele jeito de comer e caminhar. Ele lhe recordava alguém do seu passado. Linhas psicanalíticas afirmam que o subconsciente costuma enviar sinais. Catarina observou. Mas não ligou muito pra isso. Só um pouco. Uma pessoa ali na mesa comentava algum episódio corriqueiro. Catarina deu opinião. Faceira satírica moderna. Todos riram. Felipe também sorriu. Surpreendido. Não com a mesma intensidade que experimentaria dias depois. Ficou ainda mais intrigado com a irreverência de Catarina. Mulher que vinha sabe-se lá Deus de onde. Certamente de uma dimensão mais lunar do que terrestre. O fato é que as águas de Catarina fisgaram Felipe pelo falo pelas fendas. Justo aquele homem que tanto amava falar das pedras e que trazia uma no peito.

Canais

Leu em algum jornal. “O trem te leva aonde ele for”. Foi então que levou os dois àquela cidade medieval. Das pontes tudo se contemplava. Fortalezas, outrora palco de sentinelas. E muralhas portões trincheiras. “Olha, uma livraria medieval!”. E atração para turista. Catarina, chapéu lilás, seguia o curso das águas. Seu elemento insistia na abertura de pequenos canais. Fissuras na terra. Mas fogo também é elemento. Fogo de Felipe. Cigarro de Felipe. Fumava-se muito naquela época. Acendeu o seu e desatou a falar. Comme d’habitude. Explicou o legado e a disposição das pedras. Deu cerca de trezentos detalhes. Catarina pouco se interessava. Exceto pelo timbre daquele homem. Felipe, afinal, nunca dizia toda a verdade.

Chuva

Catarina e Felipe ainda não sabiam que Gentileza era um lugar tão repleto de variedades. Por sorte, ambos apreciavam as caminhadas. Uma mãe indicava o nome dos heróis ao menino. Heróis da pátria, cravados na pedra. Felipe adorava as esculturas. Catarina odiava os cemitérios que surgiam dobrando a esquina. Felipe ria. Gentil. “Decerto ela prefere outras coisas...”. Um casal de velhinhos dançava. Alegres, eles. Embalados nos tempos do pós-guerra. Tomou-o pela mão para também desfrutarem da dança. Felipe entendeu. Catarina, ela, chovia sempre. Inundava a solidez daquelas pedras que tantas vezes se permitiram penetrar. Não se dava conta, porém, do seu defeito de registro. Impresso no livro dos significados.

Tempestade

Catarina saiu sob a torrente das águas. Mulher que adorava dançar. Sua vida alagada de trilhos e avenidas. Sua irmã que apontava sorrindo para o céu. "Corra à frente de sua sombra!". Felipe era algo efêmero de si mesma. Encarnou a tempestade. Catarina nunca esqueceu o estado em que ficaram seus sapatos.

Estiagem

Felipe a amou pela metade. Ora, Catarina era dual. Mulher de Truffaut. Quando le dernier cigarro o último métro despertaram nele a razão típica dos covardes... Inventou fórmulas. Reatou o passado. Sumiu. Certo dia deu o ar da graça. Ar opaco. Brilho desperdiçado nalgum ponto do Atlântico. Tomou café. Contou histórias. Divagou sobre um filme. Não se demorou muito. Felipe... Uma ironia. Homem que minou de suas pedras toda e qualquer gota d’água.



Sheyla Diniz (01.07.2014)

* Crédito da foto: George Brassaï.


 
 
 

Comentários


bottom of page